[...]
Era alguma coisa que seria amor ou não seria. Caberia a ela, entre milhares de segundos, dar a leve ênfase de que o amor apenas carecia para ser.
Ermelinda parou com a espiga na mão, sua cabeça rodava um pouco, satisfeita, vexada. Porque, num segundo perdido entre milhares de outros na vastidão do campo, sujeita à lei da única célula que se fecunda entre as que fenecem, ela acabara de saber, como se escolhesse, que o amava. Não diretamente, pois não era moça com hábitos de coragem. Mas deste modo ela escolhera saber que o amava: “estou viva”, pensara ela. E ao pensar “estou viva” tomara pela primeira vez consciência de que antes também pensara na morte, e que também pensara no homem. A ignorância de seu próprio processo deu-lhe a surpresa da inocência. E somente então percebeu que agora era tarde demais, que só poderia amá-lo. Dolorosamente, altivamente, perdera para sempre a possibilidade de resolver. Com alívio, como quando é tarde demais. Um segundo antes ainda poderia não amá-lo. Mas agora, suavemente, vaidosamente: nunca mais. No mesmo instante teve uma sensação de tragédia.
E agora era tarde demais — qualquer que tivesse sido o sentimento gerador, este para sempre se volatizara. Era tarde demais: a dor ficara na carne como quando a abelha já está longe. A dor, tão reconhecível, ficara. Mas para suportá-la fomos feitos.
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Lolita, que agora se arrepende e gostaria que seu codinome fosse Clarice.
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sexta-feira, 12 de junho de 2009
Clarice Lispector - A mação no escuro
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